● BRAD FRASER E O COMEÇO DE UMA NOVA
UTOPIA
João Silvério Trevisan
Em Meados da década de 90, deparei-me com o
filme canadense Amor e Restos Humanos, de
Denys Arcand, que vi e revi inúmeras vezes,
sempre mergulhado em intensa perturbação. Numa
mais pude esquecer o nome da roteirista e autor
da peça na qual baseou-se o filme: Brad Fraser,
então um jovem com menos de 30 anos. Tive a
sensação de estar diante de um profeta
daquilo que nós de chamar de " fim da
modernidade". Trocando em miúdos, Fraser,
conseguira plasmar com genialidade a crise
(quase beco -sem -saída) pós -liberação sexual,
em meio à catástrofe (também amorosa) de Aids.
Entupidos de sexo fácil, seus personagem
debatiam-se entre a abulia, o cinismo e a morte
do amor. Como ninguém, ele conseguia
caracterizar o esgotamento dos sonhos de Utopia
libertária, também em matéria de amor. Ao final
do filme, estávamos ali, cara a cara com uma
realidade que beirava o nada, mas era fascinante
pela revelação necessária, mesmo quando
dolorosa, que propunha.
Passados dos esses
anos, Fraser comparece com uma continuação da
sua saga do esgotamento amoroso em Pobre
Super-Homem. Os ingredientes de dor,
ceticismo e desconserto estão todos ai: cansaços
emocional, palavras não ditas, amores tornados
inalcançáveis, consciência amortecidas. As
drogas, que deveriam abrir as "portas da
percepção", tornaram-se banalidades para
camuflar o tédio e alimentar a crise. A Aids
ainda mata , o sexo continua farto, a solidão
tritura os corações. O Nosso Grande Amor
tornou-se impossível justamente porque estamos
no território do Super-Homem. E como se
Fraser quisesse dizer: OK, quisemos criar o
Super -Homem. Aí está ele: um pobre coitado, sem
amor e sem identidade sequer; Tornou-se tão
poderoso que perdeu sua capacidade de se
comunicar.
Mas há uma
novidade:do caos pós-moderno emerge uma ponta de
esperança. E esse é o sinal da maturidade:
confrontar-se com a realidade. Há ruínas por
todo lado, não sabemos parar onde vamos. mas
aprendemos alguma coisa essencial: a encarar a
realidade. O orgulho que Pobre Super-Homem
nos propões é esse: no fundo da nossa merda está
o tesouro. Uma coisa simples, mas profundamente
escondida, tantas vezes impossível de se
descobrir: o nosso eu cuja consciência inchou
até se desestruturar. para o fraser, é então
que estamos no ponto ótimo uma vez revelado o
mal estar que de tão podre até fede. Essa
difícil momento da verdade, no meio do caos, é a
revelação.
Nossa época
correspondente àquilo que os antigos shivaísta
hindus chamavam de Kali Yuga, a terrível idade
da Dúvida - o estado final de decadência,
passadas as Idades do Ouro, Prata e Bronze. Mas,
para os antigos shivaísta, esse é também um
momento propício para a revelação. Eles
acreditavam que toda Idades da Dúvida já traz
inserida em si a semente da nova Idade de Ouro.
E é essa mesma iluminação que fraser capta no
final da peça, quando todos os personagens se
apresentam à platéia despidos de sua ilusões,
mas pronunciando seu próprio nome, sem
sofreguidão, apenas com a decisão tomada de
assumir seu próprio. Eu e sua dor, em resumo, sua
Verdade.
Assumir, portanto, que o Super-Homem morreu. Ou
melhor, numa existiu. Esse final indica o
momento perfeito para recomeçar.
● POBRE SUPER-HOMEM:
A Solidão No Século XXI
Bernardo Lynch de
Gregório
"Oh maravilha!
Como há aqui seres encantadores!
Como é bela humanidade, oh admirável mundo novo,
Que encerra Criaturas tais!"
William Shakespeare, A Tempestade
O homem
contemporâneo sofre de solidão crônica. parece
um absurdo que isso se constate no ano 2000, da
superpopulação das megalópoles. No entanto, é
isso que a peça POBRE SUPER-HOMEM vem
mostrar. escrita pelo canadense Brad Fraser, a
peça nos mostra a solidão de cinco personagens,
cada qual habitando seu próprio e exclusivo
mundo, construído à imagem e Semelhança de suas
neuroses. Aparentemente, as personagens
interagem, dialogam; porém, tal qual ocorre com
maioria da população das cidades grandes cidades
atuais, elas se debatem consigo próprias e com
seu medos, sem jamais se darem conta do terrível
isolamento afetivo a que são submetidas por si
mesmas. chegam a ocorrer diálogos que são, na
verdade, monólogos paralelos sobre temas
totalmente distintos. Incapazes de se
distanciarem de seus próprios problemas e
erguerem o olhar em direção ao outro, cada um a
sua maneira é egoísta demais para perceber
aqueles que os cercam. Não é exatamente como o
nosso cotidiano? Não é por esse caminho que
estamos indo?
O universo gira em
torno de nossos umbigos. Os medos crescem e
tomam conta da totalidade de nossas vidas.
Pânico, depressão, angústia. A peça apresenta ao
público estereótipos da "solidão acompanhada".
Personagens sufocados por papéis sociais, pela
moral, pelo trabalho, pelo vazio, acima de tudo,
pelos próprios egos. O drama se passa no Canadá,
mas poderia facilmente ocorrer em São Paulo, ou
Rio de Janeiro, em Nova York, Ou Berlim.pois não
são familiares essas questões?
O homem atual,
apesar de toda tecnologia, apesar dos avançados
científicos, apesar do progresso - este
Super-Homem sofre de solidão e falta de calor.
Falta-lhe o calor do contato humano, o calor da
afetividade real, o calor da espiritualidade
verdadeira. O Super-Homem é um esfomeado. Tenta,
em vão, aplacar sua fome com uma profusão de
estímulo absolutamente ineficazes: o álcool, as
drogas, a comida, o consumismo, o excesso de
trabalho, o status social, o sexo, a internet. O
Super-Homem é um Tântalo moderno, que já não
possui a capacidade de se saciar. Na virada do
milênio, a humanidade corre sérios riscos de se
tornar escrava de seus próprios recursos,
perdendo o que tem de mais nobre: o centro
divino. A troca de calor entre os humanos e a
vontade de existir transformando o mundo, são o
único sentido da vida humana, seu centro e seu
objetivo.
Sem esse centro, o ser humano já não é mais tão
humano quanto se pretende. Apesar de
Super-Homem, não chega aos pés do humano. Algo
dentro de nós grita de fome, mas nem sempre
estamos atentos o suficiente para perceber, para
compreender a agir a tempo.
Esta peça é um grito de fome.
Se ao menos por um
único instante pudéssemos perceber que a
felicidade está dentro de nós e não naquilo que
elegemos como objetivo de vida. Se pudéssemos
resgatar este centro divino, o verdadeiramente
humano, este calor. Se pudéssemos, abriríamos
mão de bom grado de todo o avanço tecnológico,
de toda sociedade e suas estruturas morais ,
todo o conhecimento contemporâneo, e seriamos
felizes, ao sermos criativo,
lúdicos,espontâneos. Criança. Humanos que
humanizam seres humanos o mundo a sua volta. As
atividades humanas só são valida quando feitas
com calor humano. Se compreendêssemos isso, ai
sim, este seria um admirável mundo novo e não
estaríamos errantes e a ponto de nos destruir e
ao planeta que habitamos. Se compreendêssemos...
●
FICHA TÉCNICA
Autor: Brad Fraser
Direção: SÉRGIO FERRARA
Elenco
Davd, um homem
MARCO ANTÔNIO PÂMIO
Matt, um homem
GUSTAVO HADDAD
Shannom, um homem tornando-se mulher
OLAYR COAN
kryla, uma mulher
ROSALY PAPADOPOL
Violet, uma mulher
RACHEL RIPANI
Tradução: MARCO ANTÔNIO PÂMIO
Design Gráfico: DENISE S. BACELLAR
Cenário/Programação Visual: MÁRIO SALADINI,
VERA OLIVEIRA
Assessoria de Imprensa: JOSÉ DANTAS
Fotos: JEFFERSON PANCIERI
Cenotécnicos: ANTONIO MARANHO, JOÃO ANGELO
PRANDINI
Assistência de Direção: ALESSANRA DAIDONE
Legendas:
SIMONE CASSAS
Direção de Cena:
ROSANA PAGANI
Produção das lenda:
Eddynio Rosseto
Assessoria Jurídica:
Dauran Martins Ferreira
Figurinos:
Engenharia da Moda bilheteria
Administração:
Elena Toscano Cristiane Pamio
Visagismo:
Veste Rosaly Papadopol ( Kryla ) Ricardo Santana
Produção executiva:
Vellany (Haroldo Campos) Jô Santana
Equipe de apoio:
Caetano Vilela Ailson Barcos
Iluminação: Danielle Soares
Operação de luz:
Giovani Franco Jô Santana
Direção de produção: Sérgio Ferrara Marco Antônio Pâmio
Operação de som: Anjos De Todas As Cores
Realização:
Lola San Martin Produções Artísticas
● AGRADECIMENTOS
Adalto Oliveira;
Adolfo (Restaurante do Masp);
Adrin Alexandri;
Ângela Barros;
Ângela lombardi;
Bernardo Lynch de Gregório;
Bia Venturini;
Carla Lombardi;
Carla Marins;
Carlos Reis;
Carminha Gongora;
Cássio Scapin;
Celso Curi;
Cláudia Abreu (Alquimia);
Cristina Mutarelli;
Diana Ackerman;
Eliete Cigarini;
Fábio C. de Oliveira;
Fausto Maule;
Fauzi Arap;
Fernando Carneiro;
Fernando Patrucelli;
Fred Itioka;
Gabriel Braga Nunes;
Iara Jamra;
Iara (Gersau);
Ilana Kaplan;
Instituto Goeth;
Jader Correa;
João Federici;
João Rombesso;
João Silvério Trevisan;
João Tavares;
Joaquim Goulartt;
Jorge Luiz Colzani;
Jorge Tarquini;
Kiko Mascarenhas;
Laerte Mello;
Luiz Fernando Campanella Rocha;
Luque Daltrozo;
Malu Bierrembach;
Manuel Candeias;
Marcelo Médici;
Marco Aurélio Nunes;
Marco Sâmara;
Marcos Rombesso;
Mariana Rocha;
Mariane Hemesath;
Marta de Betânia Juliano;
Martin Schmitz;
Norma Ramos;
Petrônio Gontijo;
Raquel Marinho;
Roberto Rocha;
Rosi Campos;
Rubens Caribe;
Sebastião Milaré;
Sérgio Rodrigues;
Sérgio Tônus;
Tatinha;
Teresa Athayde;
Walter Theodoro Simon;
Wilson Rombesso;
Zohrab Asdourian.
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PRÊMIOS
Prêmio APCA Melhor Diretor - ( Sergio
Ferrara) |
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