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O Mercador de Veneza

● O MERCADOR DE VENEZA

Em 1994, eu e Maria Lúcia Pereira, passamos algumas noites juntos, realizando a tradução de uma peça que eu desejava dirigir. A peça era o Mercador de Veneza, cuja ação se passa em Veneza, uma bela cidade, cheia de cores e diversidade. Representa, ainda hoje, aos olhos daqueles que a conhecem, o exótico e o excitante, um porto com toda a liberdade que a proximidade do mar parece estimular e com a presença de diversos tipos de homens de nações, raças e religiões trazidos á terra pela esperança da aventura ou do lucro.

Os prósperos mercadores de Veneza adoram a cidade com um gosto romântico, combinando os estilos do Oriente e do Ocidente, entre os quais a cidade era a ligação. Era só acrescentar a tudo isso a minha paixão como diretor e a dela como tradutora para que pudéssemos criar um ambiente de sonho, prazer e felicidade. Veneza era uma república, um dos poucos exemplos bem sucedidos de tal organização política em sua época. Nesta cidade de negócios, homens que nunca puderem compartilhar uma vida em comum, pareciam viver juntos em harmonia. Nesse sentido, o Estado tornou-se tolerante para poder conjugar numa ordem estável, homens de diferentes credos, objetivado no zeloso desejo pelo lucro.

O espírito comercial leva os homens a modular seu fanatismo. A leis que não seriam respeitadas por si próprias eram obedecidas porque representavam a base da prosperidade comercial da cidade, Só que, leis não são suficientes. Devem vir acompanhadas por boa disposição das partes que vivem sob elas. Nessa peça, Shakespeare desce ás profundezas da alma humana como nenhum outro homem fez, e por meio de sua percepção divina podemos vislumbrar as dificuldades que atravessam o caminho da humanidade. Onde há lucro, há corrupção e a lei pode ser burlada em função de interesses escusos. Shylock, apenas quer o cumprimento da lei, e por isso será castigado. Antonio e Shylock têm a sua religião (um cristão e um judeu), mas acima dessa religiosidade vemos as más ações num mundo corrupto da vida privada e política. Assim, Shylock é um emprestador de dinheiro. Ele não engana os homens, só se aproveita de suas necessidades. Se um homem quer dinheiro para seu negócio, pode usar o que é de Shylock. Ele não está interessado no homem ou em seus problemas, mas no lucro que pode obter por meio deles. O ele faz não é nobre nem generoso, mas não é injusto.

Antônio, ao contrário, procura ser generoso com seu semelhante. Ele tem dinheiro e não é para seu próprio prazer, mas para seus amigos. Ele empresta seu dinheiro, mas não lucra com isso. Antônio é triste, e a vida não significa muito pra ele; não passa de uma coisa frágil e seja lá o fascínio que tenha, a vida só vale a pena para fazer os outros felizes. Ele é um sentimental. Faz promessas que não pode cumprir, porque quer muito afeição de todos. E está destinado á solidão.
Antônio e Shylock não foram feitos para entender um ao outro, nenhum dos dois pode olhar o outro como um ser humano em qualquer sentido importante, porque diferem em tudo no que é humano. E quando os homens não concordam sobre o que é mais importante, mal podem dizer que constituem uma comunidade. A peça O Mercador de Veneza, para mim, é sobre a alma de homens que se recusam a se incorporar. Por isso ninguém confia neles, e as almas acabam envenenadas. Acredito que exista uma harmonia no mundo, é a harmonia da ordem eterna.

Em Veneza na peça O Mercador, não há o lucro, e não é á toa que é considerada a primeira peça que aborda os primórdios do capitalismo, mas também é por meio dos defeitos que nos humanizamos. Os acidentes da vida nos levam a adotar costumes que nos elevam. Shakespeare não entende o judaísmo. Ele o olhou de um ponto de vista puramente político. Contudo, estamos menos interessados na questão religiosa de Antônio ou Shylock em cena do que na tentativa do homem tornar-se tão somente um homem. Shakespeare acreditava que era da natureza do homem ter opiniões variadas sobre as coisas mais nobres e que tais opiniões acabavam investidas de doutrinas e leis que terminavam virando interesses estabelecidos. Quando confrontadas, umas com as outras, essas opiniões entravam em choque. Assim é a vida, e isso deve ser aceito de maneira resoluta. Houve em Veneza, no Brasil, ou em qualquer lugar do mundo uma tentativa de desatar um nó e unir de verdade os homens, não ao nível de suas semelhanças verdadeiramente humanas, mas naquelas que sejam politicamente benéficas – uma unidade expressa no desejo universal do homem em ganhar alguma coisa. As conseqüências disso sempre serão: ou um conflito ou um abastardamento do que é nobre e verdadeiro em cada um dos pontos de vista. Como disse um escritor “Veneza tinha a beleza adornada de uma prostituta”.

Shakespeare, não queria sacrificar, por esta ilusão a única beleza verdadeira, aquela que repousa em algum lugar além dos céus, para alguns poucos privilegiados.

Sérgio Ferrara

FICHA TÉCNICA

Elenco

Luiz Damasceno; Shylock; Fernando Pavão; Antônio (o mercador); Fernanda D’Umbra; Pórcia de Belmonte; Luciano Schwab; Bassânio; Beatriz Tragtenberg; Nerissa (a ama); Walter Portella; Graciano; Arthur Secco; Príncipe de Marrocos / Solânio; Gustavo Haddad; Principe de Aragão / Salério; Silvana Pimpinato; Jéssica; Francisco Eldo Mendes; Lourenço; Renato Dobal; Tubal / Duque de Veneza; Rodrigo Andrade; Criado / Escrivão; Rodrigo Fortuna; Criado; Leonardo Goddinho; Lancelote.

DE: William Sakespeare
Tradução: Maria Lúcia Pereira
Direção Geral: Sérgio Ferrara
Cenários e Figurinos: Luís Rossi
Iluminação: Caetano Vilela
Trilha Sonora: Sérgio Ferrara
Preparação vocal: Marco Antonio Pâmio / Edi Montecchi
Preparação corporal: Walter Portella
Assistência de direção: Marilia Adamy
Operador de luz: Lucas Gonçalves / Thiago Brito / Marcelo Ataíde
Operador de som: Nelsinho Ribeiro
Design gráfico: Zeca Rodrigues
Fotos: Jefferson Pancieri e Joana Mattei
Cenotécnico: Jorge Luís, Bira nogueira e Carioca
Costureira: Euda Alves de Souza
Assistente de Produção:Laura Beatriz
Administração: Paola Bueno Correia
Consultoria Cultural: Adriana Chung
Direção Geral de Produção: Alexandre Brazil

● AGRADECIMENTOS

Adriano Teles; Alberto – Harmony; Alex Peres; Ângela M. Silva; Antonio Carlos de Moraes Sartini; Arnaldo Pavão; Bira Nogueira; Cacau Merz; Camila Pavão; Camila Reinheimer; Carlos Callaz; Cecília Godoy; Célia Pavão; Dagoberto Feliz; Dra. Carolina S.; Bermejo; Eliete e equipe Oficina; Cultural Owsvaldo de Andrade; Elvio; Funarte; Equipe do Centro Cultural de São Paulo; Equipe  Praticável do Folias; Faber Lobo; Gilberto Mendes; Iara; Fortuna; Iara; Trasferetti; João Rodrigues; José; Plínio Trasferetti; Kleber; Montanheiro; Lindaura Godinho; Lojão da Fortuna; Lúcia Lacerda; Luiz Germano; Luna Morena Pereira; Rabelo; Marcel Cangiani; Marco Antonio Rodrigues; Marina; Camargo; Mário Bortolotto; Marlene Fortuna; Michele Rolandi; Nani de Oliveira; Patrícia Barros; Paulo Roberto Cadorso; Renata; Pavão; Renata Zhaneta; Roberto; LAge; Ronaldo Gutierrez; Sebastião Milaré; Tato; Stage; Teatro Agora; Val Pires; Valdir; Rivaben

● PRÊMIOS

Prêmio Shell de Melhor Ator - ( Luiz Damasceno)

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