● A PEÇA
O Inimigo do Povo é uma obra-prima sobre as contradições humanas e a impotência do indivíduo diante da unanimidade. O texto apresenta como personagem central o Dr. Stockmann, médico de uma estância balneária que, ao querer tornar públicas descobertas que poderiam beneficiar a cidade e seus visitantes, entra em choque com os interesses das poderosas e influentes personalidades da cidade que, por sua vez, conseguem manipular a opinião pública e colocá-la contra o médico. Vítima dessa unanimidade, o homem que queria salvar a cidade torna-se o inimigo do povo.
Publicada em Copenhague, em 1882, a peça estreou no Teatro Nacional em Oslo, em 13 de janeiro de 1883. Foi imediatamente foi traduzido para dezenas de línguas. Atual, a obra é uma impiedosa crítica às elites, aos governos, aos partidos e ao pensamento único.
● 2006 O ANO DE IBSEN
Henrik Ibsen (1828 - 1906) é um dos grandes nomes da literatura mundial. Sem dúvida, uma figura central no avanço da vida intelectual européia, sendo considerado o pai do drama moderno. Suas peças são ainda muito atuais, ainda hoje encenadas em todas as partes do mundo. Diz-se que Ibsen é o dramaturgo mais encenado do mundo, depois de Shakespeare.
O Ministério dos Assuntos Culturais da Noruega decidiu celebrar o ano de 2006, como “O Ano de Ibsen” e, para isso, promove uma extensa programação sobre o dramaturgo. Montagens das peças, palestras e outros eventos podem ser conferidos nos cinco continentes.
Para divulgação mundial, foi criado um portal oficial na internet, em mais de 90 países e acessível em 18 línguas, contendo toda a programação sobre o “Ano de Ibsen” (http://www.ibsen.net/?id=83). Cada um dos portais faz uma apresentação pormenorizada da escrita de Henrik Ibsen, bem como oferece informações sobre a relação do escritor com cada país. O Portal faz parte do site oficial do governo da Noruega e proporciona ampla informação de fundo sobre a Noruega, além de incluir notícias e detalhes sobre eventos locais.
O portal foi desenvolvido em colaboração com o Comité Nacional Ibsen e o Ministério de Negócios Estrangeiros da Noruega.
● A MONTAGEM
Sob a batuta do premiado diretor Sérgio Ferrara, de “Pobre Super Homem” (Prêmio APCA, 1999) e “O Mercador de Veneza” (melhor ator-Shell 2004), a montagem também conta com um elenco experiente. Olayr Coan dá vida ao Dr. Stockmann que tem como grande adversário seu próprio irmão, o prefeito, vivido por Paulo Hesse. A retórica eficiente de Ibsen ganha força nas atuações precisas de Rachel Ripani, Chico Carvalho, Silvia Suzy, Fernando Pavão e Júlio Machado.
A concepção da peça valoriza as ações e reações humanas expondo as contradições que acompanham o homem em sua relação com o outro e com a sociedade.
● SESC – “60 ANOS”
O Sesc não apenas acolheu o espetáculo, como também o selecionou para participar das comemorações dos 60 anos da instituição e o elegeu como o evento que homenageará Ibsen em seu centenário.
A peça pode ser conferida de 30 de setembro a 22 de outubro, na unidade Ipiranga.
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FICHA TÉCNICA
Autor: Henrik Ibsen
Direção: Sergio Ferrara
Elenco
Olayr Coan: Dr. Thomas Stockmann
Giulio Lopes: Peter Stockmann
Silvia Suzy: Sra. Catarina Stockmann
Chico Carvalho: Aslaksen
Júlio Cesar Machado: Hovstad
Gabriele Lopez: Petra
Fernando Pavão: Billing
Fernando Assis: Capitão
Cenário: Carlos Pedreañez
Figurino: Ricardo Ribeiro
Iluminação: Guilherme Paterno
Sonoplastia: Sergio Ferrara
Operador de Som: Emerson Nigro
Fotos: Jefferson Pancieri
Edição da Trilha: Servulo Augusto
Preparação Vocal: Edi Montechi
Design Gráfico: Fabio Almeida
Assessor de Imprensa: José Dantas
Produção Executiva: Arthur Secco
Direção de Produção: Elder Fraga
Realização: Fraga e Ferrara Produções
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A CONCEPÇÃO DO PROJETO
Em setembro de 2005 fui convidado para dirigir uma leitura dramática da peça “O Inimigo do Povo”, no Sesc Consolação que juntamente com a apresentação do espetáculo “O Pequeno Eyolf”, fazia parte do inicio das comemorações do centenário de Henrik Ibsen que aconteceria em 2006. Mário Bortoletto dirigiu a leitura de “Solness, o Costrutor”, Zé Celso Martinez dirigiu “Quando Despertamos entre os Mortos”, Paulo de Moraes, “Hedda Gabler” e eu “O Inimigo do Povo”. A minha admiração e o desejo de encená-la teve inicio nesse ciclo de leituras no dia 27 de outubro de 2005, desde então tenho trabalhado incansavelmente junto com o Sesc para a realização deste espetáculo. O primeiro passo foi o meu encontro com o Embaixador da Noruega no Brasil, o Senhor Jan Gerhard Lassen, que apoiou o projeto, colocando-se inteiramente a disposição para a sua realização e incluindo a minha direção do “O Inimigo do Povo” no
“PROGRAMA OFICIAL INTERNACIONAL DO ANO IBSEN 2006”. Em seguida partimos para uma serie de leituras que realizei com vários atores em muitos lugares diferentes para aprender a escutar melhor as personagens e suas infinitas possibilidades de jogo. A ultima leitura aconteceu na Casa do Saber em São Paulo, onde, dali partimos para a sala de ensaio, com a certeza que teríamos um árduo trabalho, porem muito instigante. Eu e Rachel Ripani nos encarregamos de uma tradução literal do inglês dos cinco atos do original. Feita essa tradução, o elenco todo se reuniu e coletivamente começamos um minucioso trabalho de adaptação do texto. Alem de nossa tradução consultamos no processo de adaptação à tradução feita por Beatriz Segal em 1969 para a montagem do Teatro São Pedro. Consultamos também a tradução de Pedro Mantiqueira para a coleção L&PM Pocket e a tradução e adaptação de Domingos de Oliveira para a montagem do Rio de Janeiro e uma tradução para o espanhol. É de máxima importância agradecermos muito o trabalho desses colegas tradutores que nos nortearam para a concepção e entendimento do resultado final da nossa montagem. A cada dia os atores não só tentavam entender as idéias por trás das palavras, mas também como adapta-las e coloca-las na boca do ator que as interpretaria. Com a pauta do Sesc Ipiranga fechada, a tradução e adaptação feita, iniciamos os ensaios de cena. Recorri mais uma vez aos meus fieis atores, que nesses últimos anos, vem desenvolvendo comigo meus projetos pessoais e junto compartilhamos idéias e objetivos similares. Assim foi como “Pobre Super-Homem” de Brad Fraser, “Abajur Lilás” e “Barrela” de Plínio Marcos, “Mãe Coragem e Seus Filhos” de Bertold Brecht, “O Mercador de Veneza” de Willian Shakespeare e “A Última Viagem de Borges” de Ignácio de Loyola Brandão. São projetos que requerem paciência na realização, pois precisam de tempo para amadurecer, e muitas vezes o mercado descarta esse tipo de proposta. Elenco, Diretor e toda a equipe de produção, juntamente com nossos parceiros, o Sesc, a Embaixada Real da Noruega e nossos apoiadores fomos pacientes o suficiente para deixarmos acontecer no momento certo o nascimento da peça.
“O Inimigo do Povo” foi escrita em 1882, e causou grande polêmica ao retratar a hipocrisia institucionalizada dos políticos ao mostrar que em mãos desonestas a verdade pode ser tão destrutiva quanto à mentira, revelando, que a vontade muitas vezes nos leva inexoravelmente a catástrofe.
Classificada como uma peça de tese ou drama sociológico, “O Inimigo do Povo” é oportuna para ser montada nesse momento político brasileiro, pois estamos em época de eleições e a peça debate a ética do poder na política.
Eu a concebi a encenação como um jogo, onde os atores permanecem o tempo todo em cena, ficam sentados nas laterais e são cúmplices das cenas que se desenrolam, mesmo não participando delas.
Assim, tudo que é dito, é testemunhado por todos, mesmo que depois cada personagem faça as suas escolhas em relação à trama que se desenvolve. Esta opção de encenação foi também uma forma de valorizar o texto, que como um manifesto humano sobre a real natureza do homem na busca dos seus interesses, leva-o muitas vezes a fazer escolhas erradas. O eterno combate entre vida e idealismo, entre pessoal e coletivo, entre maioria e minoria. Ou como diz o próprio personagem da peça, Dr. Thomas Stockman:
“Da revolução da verdade contra a mentira. Nada é mais odiado entre nós do que a verdade, portanto é preciso protegê-la. As verdades em cima das quais edificamos nosso mundo já estão velhas, esclerosadas, em passos rápidos para a decomposição como as substâncias orgânicas de nossas águas. Não são mais verdade, são mentiras. O verdadeiro grande mal é a pobreza, são as miseráveis condições de vida que esmagam muitas pessoas. Em ultima analise: os poderosos, os mesquinhos, os interesseiros, cultivam a ignorância para se manterem no poder e obter lucros e vantagens. Eles inventaram os partidos políticos para policiar as consciências, exterminar as novas idéias e, portanto, não ter o seu poder ameaçado. Partido político feito para moer carne,... carne humana”.
Mesmo como essas palavras, Dr. Stockman, personagem central da peça, também será atingido no seu orgulho pelo seu excesso de idealismo em relação ao mundo e as pessoas.
Não pretendo de forma alguma, como diretor, ser tendioso em relação às idéias do texto. Meu desejo é trazê-las à tona e deixar para o publico o espaço necessário para a reflexão. Afinal o debate é muito mais complexo do que imaginamos e devemos persistir sempre na busca de um coletivo social mais humano e mais justo para todos.
Sérgio Ferrara |
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