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O Diário de Eva

● A MÃE DO MUNDO

Raciocinar sobre a mulher sempre me fascinou. A mulher, mãe eterna do todo. A primeira mulher, Eva. Li o diário de Eva escrito por Mark Traem e me deu vontade de reescrever a historia toda como um madrigal, com a cadência de um grande madrigal. Aos poucos se confirmou a intuição que sempre tive sobre a superioridade da mulher, desde as origens de nossa raça; inclusive confirmada pela antropologia. Essa mulher é a intelectual na organização da vida: cria as formas, os vasos, os utensílios, enfeita e pinta. ... também, nas sociedades pré-matriacais, a que introduz a maneira diversa e mais rica de nutrição: o sustento agrícola. Cultiva a horta, colhe e amassa as sementes, domestica os pequenos animais. Na “minha historia”, é ela quem inventa também a linguagem. Lá pelos cinqüenta anos, Eva reencontra e relê o seu diário, e assim compreende e nos explica sua vida, e o seu relacionamento com aquele tonto do Adão, a quem deu o seu saber e a sua sabedoria, que o amou a ponto de fazê-lo acreditar que o verdadeiro gênio era ele. Adão transformara o seu saber de mulher em poder de homem, com as conseqüências que todos sabemos. Mas o meu “Diário de Eva” não vai tão longe.

Termina na morte de Abel. A estrutura da narrativa é mais simples, como nas minhas outras comédias, joga coma intervenção do caos. Para a linguagem, me inspirei em Boccaccio: bastante. Portanto, como eu dizia, Eva descobre na sua maturidade o seu diário, uma narração de idéias e impressões transcritas com caracteres cuneiformes que só ela se atreve a interpretar. Um coro, o coro dos filhos que pode ser até um coro abstrato, trazendo-a para cena como uma santa, uma mãe eterna e convidando-a a uma releitura. Através da releitura nasce dentro dela a idéia de que a sua presença no mundo seja uma experiência, o fruto de um jogo inventado por um ser misterioso que a investiga e observa através de um grande triângulo: um olho que a vigia atento avaliando todas as suas reações. Reações e comportamento ditados sobretudo pela curiosidade que Adão lhe inspira, um desconhecido que se movimenta pelo Éden com ar aturdido e sonhador. A partir do encontro entre os dois, se coloca a representação. Eva tem consciência da sua superioridade intelectual, das suas capacidades criativas, e é ela que dá nome aos animais baseada na sua intuição imediata, utilizando formas lingüísticas onomatopaicas. O resultado é a nomenclatura completa do universo. Quando Adão arrisca uma tentativa de elaboração lingüística, o resultado é medíocre. “Bode velho”, pensa Eva. “Mas como, para um animal com cornos?” Se aparentemente manifesta satisfação e prazer pela intuição de Adão, tem claro dentro de si que é somente uma concessão a doçura que lhe inspira esse homem, o falso reconhecimento da sua inteligência. O que poderia ser a atitude de uma mãe nos confrontos com o filho. Numa trama de fingimento de jogos de sedução, de diversão. Eva permite Adão descobrir o amor e a sensualidade. De concessão em concessão Eva delega a Adão privilégios e poderes: através desse jogo aparentemente sem conseqüências o homem edifica o seu universo e inventa a sua força.

● FICHA TÉCNICA

Direção: Sérgio Ferrara
Texto: Dario Fo / Franca Rame

Elenco

Claudia Mello: Eva
Giovanna Patrice: Eva terça-feira
Narahan Dib: Eva quarta-feira
Malu Bierrenbach: Eva quinta-feira
Gisela Arantes: Eva sexta-feira
Lourival Brasil: Adão
Marcelo Galdino: Caim / Anjo
Caetano Vilela: Abel
Marcelo Izar: Anjo Solista
Cristiane Saad: Serpente / Bailarina
Valdir Raimundo: Rainha / Anjo
Aderaldo Maia: Rainha / Anjo


Tradução: Bri Fiocca / Narahan Dib
Diretor Adjunto: Caetano Vilela
Cenário / Figurinos: Luis Rossi
Assistente Cenografia e Figurino: Rita Benitz / Tereza Rivas / Charles Lopes
Música Composta: Marcelo Pellegrini
Iluminação: Caetano Vilela
Maquiagem: Adriana Vaz Ramos
Operação de Som: João
Operação de Luz: Cláudio Rodrigues
Confecção das Asas: Wanderlei Francisco Lopes
Divulgação: Gisela Greff Bello
Fotos: Ary Brandi
Produção Executiva: Antagônica Produções
Supervisão: Circo Grafitti: Rosi Campos

● AGRADECIMENTOS

Rose May Bri Fiocca
Camila Pinho
Lélia Abramo
Calisto
Antonio Ravan
José Cláudio Peixoto Mendes
Equipe de Divisão de Artes Cênicas do CCSP
Marcelo Boffa
Equipe da Divisão de Difusão Cultural
Lílian Vaz
Tita D’ Amilak
Dazz Comunicações Ltda
Cristiane Paoli-Quito
Teatro Sérgio Cardoso (Roberto)
Paolo de Tarso Semeghini

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